Às vezes eu sinto que a pandemia foi um portal pra outra dimensão (viajando na maionese)
Diário de um Gen Z: Jovem Genial e Ansioso
Samuel Lucena
5/8/20245 min read
Às vezes eu sinto que a pandemia foi um portal pra outra dimensão. E não, eu não tô tão viajando na maionese quanto parece.
Sei que soa teoria maluca de quem passou tempo demais sozinho em 2020. Mas se você olha pra sua vida pré pandemia e sente que tá olhando pra vida de outra pessoa, esse texto é pra você.
O antes que parece filme de outro alguém
Eu abro fotos de 2018, 2019, e é bizarro. Não é nostalgia normal, tipo "ah, saudade daquela época". É mais estranho que isso, parece um universo paralelo que eu visitei uma vez, de passagem, sem intenção de ficar.
Acho que a gente nunca teve linguagem pronta pra descrever esse tipo de estranhamento, então recorre a metáfora de portal, de dimensão, porque nada mais dá conta. Não foi só o tempo que passou. Foi como se um filme tivesse sido pausado no meio e trocado de rolo, sem aviso.
Março de 2020, o botão que apertaram
Todo mundo lembra do momento exato. Escola fechando, festa cancelada, rua vazia que só existia em filme de apocalipse. Dias todos iguais, notícia constante, medo baixo mas constante, tipo um zumbido no fundo da cabeça.
Minha opinião é que esse momento específico funcionou como uma espécie de trauma de origem geracional, parecido com o que outras gerações tiveram com guerra ou crise econômica grande. A diferença é que o nosso trauma foi silencioso, dentro de quatro paredes, sem imagem de bomba ou fila de banco. Só o vazio da rua e a sensação de que alguém trocou o cenário da realidade, deixando os mesmos personagens em cena sem roteiro novo.
O tempo quebrado
Virou piada coletiva, "2020 não aconteceu", "2021 foi DLC de 2020". Mas por trás da piada tem uma sensação real, eu envelheci por dentro sem ter vivido o que "deveria" ter vivido nesse tempo.
Acho que essa piada virou tão repetida justamente porque é a forma mais leve de carregar uma dor que, falada sério, pesa demais. É esse descompasso entre idade e experiência que alimenta a ideia de portal. Não é só metáfora bonita, é a forma mais honesta que encontrei pra descrever um buraco na linha do tempo.
As duas linhas do tempo
Tem a linha A, eu sem pandemia. Faculdade sem tela, primeiro emprego sem home office forçado, festas, viagens, corpo que não passou dois anos em modo sobrevivência.
E tem a linha B, a que eu realmente vivo.
Existe um luto nisso que quase ninguém nomeia. Não é luto por alguém que morreu, é luto por uma vida que nunca aconteceu, mas que eu sinto que perdi de verdade. Especulo que boa parte da ansiedade que minha geração carrega hoje não vem só do presente incerto, vem desse luto não processado por um passado que ficou em aberto.
O golpe específico na Gen Z
Quem tinha entre 16 e 25 anos quando isso bateu perdeu justamente a fase que mais precisa de gente ao redor, ensino médio, faculdade, primeiro emprego. As etapas de virar gente na base de tentativa e erro social, a gente pulou.
Isso deixou marca. Solidão que virou hábito, medo do futuro que ficou morando na rotina, ansiedade que não é fraqueza, é resposta lógica a um mundo que provou, na prática, que pode parar de funcionar do nada. Acho que é por isso que tanta gente da minha geração parece "madura demais" e "perdida demais" ao mesmo tempo. A gente cresceu rápido em teoria e devagar em prática.
Portal como forma de nomear o trauma
"Portal pra outra dimensão" não é só brincadeira, é a forma mais honesta que encontrei de falar de trauma coletivo sem soar clínico demais. Quando algo muito grande acontece, a cabeça marca um "antes disso" e um "depois disso", como se fossem dois mundos diferentes de verdade.
Chamar de portal é só um jeito de organizar o que não tem lógica nenhuma.
Portais não são só pessoais
Circula muito por aí a ideia de que decisões são portais. Que intenções também são portais. Cada escolha grande, cada intenção lançada com força, abre uma passagem pra uma versão diferente de quem a gente é.
Eu acho que isso vale, mas ando pensando que a gente esquece de aplicar essa mesma lógica em escala maior. Eventos globais também são portais. Uns mais fortes que outros, alguns quase imperceptíveis, outros capazes de rasgar o tecido inteiro da realidade compartilhada. O fluxo natural das coisas, mesmo quando negativo, tem uma continuidade. A pandemia interrompeu esse fluxo de um jeito que nenhuma decisão individual seria capaz de fazer sozinha.
Como indivíduo eu me vejo preso hoje num mundo que eu não reconheço mais como o fluxo contínuo de antes. Bastante distópico em várias frentes, mas de um jeito estranhamente adormecido, automático, quase sonolento. Não é a distopia barulhenta de filme, é uma distopia que funciona no piloto automático e que a maioria das pessoas nem repara mais que é estranha.
Querendo ou não, acho que a pandemia funcionou como um ritual coletivo. Não no sentido religioso tradicional, mas no sentido de ter nos submetido, todos juntos, a uma mudança que não ficou só na cabeça de cada um. Ficou no tecido da realidade em si, na forma como o mundo inteiro passou a se encadear depois disso.
A expansão que ainda não tem nome
Sinto também que desde o fim da pandemia começou um novo fluxo, um que vem crescendo cada vez mais e que eu ainda não sei nomear direito.
É uma sensação de expansão que vem sendo contida, represada, mas que a qualquer momento pode pipocar e consumir o mundo inteiro, como um próprio big bang se expandindo sem parar. Não sei dizer se essa expansão é boa ou ruim, acho que talvez seja as duas coisas ao mesmo tempo, dependendo de onde a gente olha. Mas sinto essa pressão crescendo por baixo do chão automático que virou o cotidiano, como se o mundo estivesse guardando fôlego pra alguma coisa que ainda não aconteceu de verdade.
As regras mudaram
Antes eu acreditava numa estabilidade mínima. Estuda, trabalha, se esforça, a vida funciona.
Depois eu sei, na pele, que tudo pode parar do nada. Governo pode falhar. Sistema pode travar. E isso muda prioridade, mais urgência pra viver, mais fome de sentido, mais vontade de criar minha própria saída em vez de esperar a engrenagem me levar. Minha opinião é que essa quebra de fé no sistema é a raiz real por trás da onda de gente da minha idade tentando empreender, criar conteúdo, sair da rota tradicional. Não é preguiça de emprego formal, é desconfiança aprendida.
Mundo quebrado, ainda em pé
Depois da pandemia ficou mais concreta essa sensação, o mundo continua de pé, mas com rachadura visível em todo canto. Política, economia, clima, internet, tudo com essa vibe de sistema que ainda funciona, mas raspando.
Quem eu virei do outro lado
Essa é a parte mais pessoal. Eu sei quem eu era antes do portal. E sei quem virei depois, nas minhas dores e também nas forças que só nasceram porque fui obrigado a atravessar isso.
Fica a pergunta solta, se isso foi mesmo um portal, que tipo de personagem eu virei do outro lado?
O que dá pra fazer com um mundo quebrado?
Em vez de ficar só no luto da vida que eu teria, prefiro virar a pergunta, o que só é possível justamente porque tudo quebrou?
Trabalho remoto, criação de conteúdo, arte sem depender de porta fechada por instituição, comunidade online, terapia mais acessível. Se o mundo já parece outra dimensão mesmo, talvez a gente também possa escrever regras novas nele. E talvez essa expansão que ainda não tem nome seja justamente o espaço onde essas regras novas vão caber.
Se a pandemia foi mesmo um portal pra outra dimensão, a gente ainda tá aprendendo as regras desse lugar. Mas talvez essa seja a parte boa, dá pra hackear muita coisa por aqui.
Não vou fingir que a dor não existiu. Mas também não vou fingir que não dá pra construir vida com sentido nesse mundo pós portal, mesmo enquanto essa expansão continua crescendo por baixo de tudo, esperando o momento de pipocar.
